Em guerra contra Deus, armados de pedras
Desde março, o Irão enforcou pelo menos 59 pessoas por acusações políticas, entre elas adolescentes, cinco das quais em público. Os seus crimes, segundo os tribunais: janelas partidas, pedras atiradas, motas incendiadas, tudo catalogado como «guerra contra Deus». Uma missão da ONU fala agora de crimes contra a humanidade.
Guerra contra Deus, versão janelas partidas
Na República Islâmica, os crimes mais graves têm os nomes mais grandiosos. «Travar guerra contra Deus» e «corrupção na Terra» são puníveis com a pena de morte, e os juízes iranianos distribuem-nas generosamente. Sasan Azadvar Jonaqani, campeão de karaté de 21 anos, foi enforcado a 30 de abril por atos como, alegadamente, ter partido à pedrada e à bastonada as janelas de um autocarro da polícia. Amir Hossein Hatami, de 18 anos, foi executado 84 dias após a detenção por ter invadido uma base dos Basij, atirado pedras e incendiado duas motas. Não era acusado de ter matado nem ferido ninguém.
Dos 29 manifestantes executados entre 18 de março e o final de agosto, 16 nem sequer eram acusados de ter matado alguém, segundo a Human Rights Watch e o Boroumand Center. O procurador-geral do Irão tinha dado o tom em janeiro: todos os desordeiros, fizessem o que fizessem, estão a travar guerra contra Deus. A linha da frente do Todo-Poderoso, ao que parece, passa agora pelas janelas dos autocarros.
«Por amor de Deus, a execução não»
As provas consistem sobretudo em confissões obtidas sem advogado e, segundo os arguidos, sob tortura: espancamentos, choques elétricos, simulacros de execução, ameaças de violação contra eles ou os seus familiares. Quando Saleh Mohammadi, campeão de luta livre de 19 anos condenado pela morte de um membro das forças de segurança, se retratou da confissão em tribunal, os juízes rejeitaram a alegação porque não tinha marcas visíveis de tortura. Foi enforcado cerca de cinco semanas após a detenção. A televisão estatal transmite as confissões. Numa delas, um interrogador diz a Shervin Bagherian, de 18 anos, que é acusado de travar guerra contra Deus. O jovem pergunta o que isso significa. A resposta: execução.
«Por amor de Deus, a execução não. Senhor, cometi um erro.»— Shervin Bagherian, 18 anos, num vídeo de confissão transmitido pela televisão estatal iraniana
No processo da Praça Shohada, em Isfahan, dez dos dezasseis arguidos foram condenados à morte em agosto, sem que nenhum fosse acusado de homicídio. Entre eles está Taraneh Rahimi, de 20 anos. Um advogado do processo apresentou uma queixa por confissões forçadas, espancamentos e agressões sexuais contra ela e a irmã gémea.
Enforcamentos públicos e um ataque cardíaco
Para garantir que a mensagem passa, algumas execuções são encenadas em público. A 28 de julho, Abolfazl Sepahi e Amir Hossein Safari foram enforcados na Praça Alikhani, em Isfahan, onde quatro membros das forças de segurança terão sido mortos em janeiro. O primo de Abolfazl, Alireza Sepahi, devia ser enforcado com eles, mas sofreu um ataque cardíaco junto à forca. Foi levado para o hospital e depois reconduzido à prisão, onde continua em risco iminente. Na República Islâmica, sobreviver à própria execução vale um adiamento, não um perdão. Outras famílias nem sequer são avisadas: alguns manifestantes foram executados em segredo, sem uma última visita.
Todos são espiões
Quando a guerra contra Deus não basta, há a espionagem. Uma lei de 2025 que agravou as penas por colaboração com Israel e com Estados hostis fez dessa cooperação um crime punível com a morte e reduziu o prazo de recurso de 20 para 10 dias. Pelo menos oito manifestantes executados foram condenados ao abrigo desta lei, sem qualquer prova de espionagem, segundo organizações de defesa dos direitos humanos. A 19 de setembro, o Irão enforcou Hossein Pedaran, acusado de transmitir à Mossad informações sobre instalações de mísseis em Isfahan, após um julgamento à porta fechada num tribunal revolucionário. As organizações de direitos humanos contabilizam pelo menos uma dúzia de execuções deste tipo desde a guerra de junho de 2025. A retórica oficial apresenta os manifestantes como soldados rasos de um golpe americano-israelita. No Irão, um manifestante é um terrorista, um agente da Mossad ou, por conveniência, ambas as coisas.
Protestar contra isso também é crime: o procurador de Teerão abriu processos contra pessoas que se pronunciaram contra as execuções, e pelo menos 19 advogados foram detidos no mês que se seguiu aos massacres de janeiro. Pode-se ser enforcado por protestar, processado por contestar e detido por defender os acusados.
Crimes contra a humanidade
A 17 de setembro, uma missão de averiguação da ONU concluiu que a repressão dos protestos iniciados em dezembro de 2025 constituía crimes contra a humanidade: assassínios em massa, tortura, dezenas de milhares de detenções arbitrárias e um corte da internet a nível nacional durante mais de cinco meses, o mais longo de que há registo. A algumas famílias foi exigido dinheiro para recuperarem os seus mortos, e foram pressionadas a assinar declarações que os descreviam como agentes do Estado. Mais de 70 pessoas, entre as quais cinco mulheres e três rapazes, estão em risco iminente de execução. A mesma missão encontrou também motivos razoáveis para crer que os Estados Unidos cometeram crimes de guerra, incluindo um ataque a uma escola em Minab que matou cerca de 120 crianças, pelo que dificilmente pode ser descartada como um instrumento do Ocidente.
O Irão realizou entre 1639 e 2159 execuções em 2025, consoante as contagens, o número mais elevado desde o final dos anos 1980, quando uma fatwa de Khomeini mandou milhares de presos políticos para valas comuns. Mais de 30 países, entre os quais a França, o Reino Unido e o Canadá, acusaram Teerão de executar manifestantes para «silenciar a dissidência».
«O que temos realmente no Irão são execuções arbitrárias.»— Payam Akhavan, antigo procurador da ONU, agosto de 2026
A República Islâmica acusa os seus manifestantes de travarem guerra contra Deus. A julgar pelos factos, a guerra é do próprio regime, travada contra a sua juventude, praça pública a praça pública.
